O PEIXE EXÓTICO

 
Imagem do DevianArt por Jaimie (OfPink).


Não era mais um filme do Kurosawa, mas havia um cenário pitoresco oriental.
Um ponte curva sobre um rio corrente e negro, alegrado apenas pelas folhas das cerejeiras enfileiradas nos canteiros próximo ao barranco.
Do outro lado tinha uma cidade enorme, fazendo contraste com aquele quadro.
Eu atravessei a pequena ponte sem a mínima ideia do porque estava andando naquela direção, pensava que minhas pernas estavam me levando para mais um passeio tranquilo.
Na esquina, para preencher o clichê, havia uma loja de frutas e uma senhora asiática, de olhos vivos e cabeça chacoalhante, andando de um lado para o outro como se esperasse alguém.
Atravessei a rua meio deserta, ou pelo menos assim pensei já que nem fui tentada a olhar para os lados e ao colocar o primeiro pé na calçada, a senhorinha me puxa pelo braço e com um sotaque forte indica que eu sou a primeira, e tenho que me apressar para resgatar meu presente.
Ela vai até alguns tambores cheios de peixes vivos e com uma rede, apanha algo lá do fundo e mais do que rápido coloca em um saco com água e me entrega. Sem ao menos tempo de piscar os olhos, uma turba atrás de mim começa o jogo do empurra, cada um querendo seu prêmio.
Consigo me desvencilhar do mar de braços esticados, como que pedindo por algo, dou alguns passos e levanto o tal saco e vejo algo que parece um algodão. Branco, fofo, imaculado.
Olho para quem me deu tal presente, já ocupada em atender a demanda, ela apenas me responde que é um coelho aquático. Mais estranho do que isso é o fato de que eu nem me pergunto se existe tal bicho, mas o que vou fazer com ele...
Começo a caminhar pelo panorama urbano, com o braço enrijecido, como se tivesse carregando uma fralda suja e não soubesse onde desovar a "encomenda". Olho tudo a volta com normalidade, apesar de nada parecer com a cidade onde moro, e vejo concreto, concreto e concreto.
Então, tento lembrar dos meus ídolos e como eles resolveriam o conflito caso vivessem um drama semelhante. Não, não consigo pensar em nada, embrenhada pela cidade, nem sei voltar para o rio que atravessei no início, era como se tudo o que tivesse ficado atrás de mim não existisse mais.
Olho para o horizonte e vejo uma loja de aquários!
Achei o desfecho meio Deus ex Machina, mas é melhor do que deixar meu coelho aquático morrer. Existia uma angústia imensurável que acendia em mim quando eu imaginava essa possibilidade.
Entro na loja e faço que estou procurando algo, mas não procurando. De uma forma que o vendedor não se interesse pela minha pessoa, boceje e vá olhar a movimentação na rua e eu zupt, despeje o pacote dentro de um dos tanques.
Um moço alto, de cabelos pretos, olha para a garota de chapéu de raposa que entra e eu sinto que essa é minha chance!
Maldito nó. Eu lutei para desata-lo e fui pega no momento em que derramava as primeiras gotas no aquário. A vergonha era menor que o peso da responsabilidade, então tentei argumentar que era um animal raro, que valia mais do que todos os outros que ele tinha. Fui expulsa aos gritos.
Desolada, sigo em frente evitando as riscas do pavimento, a minha sorte não estava das melhores mas logo mudaria: ouvi o barulho borbulhante de água e de longe vi longos troncos e copas mastodônticas que pareciam se reunir em uma praça. Esqueci a humilhação, esqueci o chão e passei a seguir o que via no céu. Não demorou muito e eu cheguei em um lugar com muito verde e crianças brincando.
Havia uma mangueira jorrando água e por um minuto considerei deixar o bichinho em uma poça. Era como se eu pudesse lavar minhas mãos, só que na lama. Não. Assim não.
Continuei andando meio que de costas, admirando as árvores que nunca havia visto antes e vejo mais abaixo, o rio e outra ponte. Corro freneticamente mais uma vez, olho para a água negra e então para a criaturinha branca, preocupantemente quieta. Mais uma vez, eu não consigo.
Eu sabia que havia um lugar onde ele deveria ficar bem e não era aquele.
Atravesso a ponte e mais uma vez recebo a resposta dos céus: um prédio com vidros azuis espelhados que vazam água, o ruído é de cascata. Subo a rua íngreme e encontro o tal edifício com colunas também de vidro e um jardim com tanques transparentes repletos de PEIXES.
Não tem ninguém olhando e o coração me diz sim, sim, sim! Este é o lugar.
Mais depressa do que antes, abro o nó do saco e entorno o conteúdo sem hesitação. O meu coelho aquático cai, faz tchibum e não se mexe, apenas solta um resíduo escuro.
Eu suspiro de olhos abertos então. O sonho acaba nesse transição e eu não sei se consegui salvar meu amiguinho e muito menos o que significou toda essa corrida.
Só entendo que o google me diz que não existe tal animal e que mais uma vez, é angustiante ser anormal mesmo em um mundo tão maluco como o nosso.