A CEIA




Era apenas mais um desses cafés americanos que parecem ter parado no tempo, precisamente na década de 50. As garçonetes lembravam Monroe e Hayworth, e não era intencional, nem a maquiagem, nem os penteados e os trejeitos.
Feito uma tigresa no cenário urbano, Albertine Moseff e seu coturno de couro surrado pousavam sobre o banco de matelassê vermelho, ela espreitava a janela como se dali viesse sua próxima presa sem perceber que na mesa logo á frente, um sujeito metido á teddy boy a fitava com olhos bacânticos.
Ele se levanta, arruma a gola da jaqueta de couro e vai até sua mesa, parando na sua frente, presunçoso.

- Posso me sentar?
- Pode. Mas não na minha mesa.

Contrai o lábio contrariado, e sai resmungando qualquer coisa. Posiciona-se perto da porta então.
Pela janela, a moça vê estacionando uma vistosa limusine preta e mais do que depressa pula um latino mirrado de dentro dela e abre a porta com presteza.
Surge portanto um loura belíssima, de pele alabastrina e traços soviéticos, que se move elegantemente, adentrando o lugar. Ela tira o requintado casaco negro e revela vestes que combinam perfeitamente com o ambiente, embora sendo de material mais refinado e de um distinto bom gosto.
Sorri de maneira lasciva para Albertine, vai até a jukebox e coloca uma música. No trajeto é seguida pelos olhos do rapaz atrevido e sem cerimônia, o retribui a altura quando toca em sua mesa antes de se sentar junto da moça. Ela empurra um envelope e assim que a outra o pega, segura em sua mão.

- Você tem alguma novidade pra mim?
- Consegui o convite para a festa que você tanto queria ir. - Aproxima-se do ouvido da loura e sussurra - Mas acho o ambiente meio barra pesada, quer mesmo ir, Genna?

Genna beija sua bochecha, passa a mão nos seus cabelos e mira os olhos egípcios de Albertine.

- Você sabe que eu adoro perigo!

A garçonete, de bandeja na mão observa a cena com receio de interromper o momento, principalmente se dando conta do que está prestes a fazer.

- O cavalheiro da mesa três pediu para entregar para a dama de vermelho. Me desculpem!

As duas moças continuam se encarando como se quisessem conversar telepaticamente, elas reconhecem sua dor e tem intimidade para se contemplarem sem estranhamentos, sem inibições.
Albertine recolhe então a taça que pousa na frente da outra e começa a beber o coquetel. O rapaz franze a testa e espreme os olhos com a audácia da morena. Genna então se levanta e começa a abotoar o casaco.

- Mas já vai?

A loura sorri sem mostrar os dentes, olha para o convencido sentado na mesa três e pisca o olho para a amiga.

- Sim, um drinque é pouco. Eu mereço um jantar digno.

Assim, ela caminha até a mesa do sujeito e toca seu ombro. Ele se levanta e lhe oferece o braço, olhando com desdém para a morena. Antes de saírem do café, o motorista os aguarda segurando a porta do veículo. Genna entra com a sofisticação que lhe é nata, o rapaz orgulhoso a segue. O serviçal se coloca ao volante e olha para a madame, como que perguntando o trajeto.

-  É hora do jantar, Duarte. Você sabe o que fazer.

Então o motorista levanta a divisória que o separa dos passageiros, dá a partida no carro e em seguida ouve os gritos do homem e observa os respingos de sangue no vidro. Pisa no acelerador e segue adiante assobiando qualquer canção que aprendeu com seus avós.

PS. Essa cena é a sequência de uma história cujo início vai ser publicado em uma coletânea de quadrinhos de terror até março deste ano. Por isso, não se espantem com o estilo, só com a história XP